Festival de Cinema de Cartagena, o mais antigo da América Latina, se renova

Começou na última quarta-feira, 1 de março, mais um Festival Internacional de Cinema de Cartagena. É um grande feito: o festival mais antigo da América Latina celebra na (bela, turística, calorosa, algo caótica) cidade do Caribe colombiano sua 57ª edição. Está portanto vivo, pulsante e esbanjando um público enorme, como tenho a chance de ver, acompanhando o evento de perto. 

São seis sessões competitivas – Ficção, Documentário, Cinema Colombiano, Curtas-Metragens, Novos Criadores e as chamadas “Gemas" –, que oferecem aos espectadores 40 longas e 42 curtas e, com eles, uma bela amostra de cinema ibero-americano e de outras regiões (são 37 países contemplados). 

Uma das coisas que mais me chama a atenção é que o Brasil está brilhando nesse panorama, o que significa que brasileiros (filmes e profissionais) têm a chance de se integrar mais com o resto da região, assim como os hispano-americanos conosco. O Festival de Cartagena deste ano tem longas brasileiros dentro e fora de competição (dois exemplos são: Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans, e Aquarius, de Kleber Mendonça), uma seção de homenagem ao documentarista Eduardo Coutinho (foi uma delícia assistir Jogo de Cena com uma plateia colombiana e perceber em que partes do filme riam ou silenciavam e os comentários ao final) e sete curtas-metragens em competição (destaco A Gis, de Thiago Carvalhaes, e A moça que dançou com o diabo, de João Paulo Miranda Maria, menção especial em Cannes, só para dar um gostinho).

Falando do ar que se respira e da presença obviamente mais marcante em Cartagena, que é a colombiana, o festival tomou a decisão política, mais do que estética, creio eu, de inaugurar a programação com o documentário sobre o processo de paz na Colômbia. El silencio de los fusiles, da jornalista Natalia Orozco, abriu o festival na quarta-feira à noite com a presença do presidente Juan Manuel Santos, que discursou para uma ampla plateia antes da exibição do filme, e também de participantes do processo que resultou na assinatura de um acordo definitivo, após o plebiscito falido, em dezembro de 2016. 

O filme constitui um importante documento histórico, com entrevistas algo mais densas que os meios de comunicação não fizeram ou não tiveram acesso, e tem seus momentos de sensibilidade. Foi criticado por várias pessoas por ser (1) meio “chapa-branca”, como disseram alguns, (2) de linguagem excessivamente jornalística e (3) por passar quase reto na polêmica e no desânimo plantado entre os colombianos quando o “não" venceu o plebiscito em 2016. No entanto, começar o festival com um filme nacional e sobre este tema foi um ato corajoso, bonito, necessário sobretudo. E emocionou bastante por aí.

Outros comentários que posso fazer antes de desenvolver outros assuntos em outros posts são: 

(a) Como o cinema colombiano e seus protagonistas estão mais confiantes de seus processos, de seus trabalhos etc. Vivi aqui de 2007 a 2010 e nesse tempo acompanhei o começo de uma trajetória ascendente do cinema nacional, que hoje demonstra um salto de quantidade e qualidade, algo muito bacana de constatar.

(b) E como há muito mais coproduções de países latino-americanos entre si e com países de fora da região, que não os tradicionais parceiros de outros tempos (Espanha, França e até Alemanha etc). Vê-se agora Estados Unidos, Coréia, Canadá, Portugal…

O FICCI 57 vai até o dia 6 de março, com atividades de formação e para profissionais da indústria, além da exibição dos filmes. Para mim, o clima geral se resume em uma palavra: renovação.