O argentino "El prófugo", na disputa pelo Urso de Ouro

Depois de uma viagem traumática, uma jovem cantora e dubladora embarca num período difícil da vida, em que realidade e ilusão passam a se confundir para ela. Interferências misteriosas atrapalham seu sono, a emissão de sua voz e seus dias – povoados de namorados estranhos, uma mãe alheia, porém controladora, e colegas de trabalho que tentam ajudá-la a desvendar seu drama pessoal.

“El prófugo” (O invasor) – filme argentino coproduzido pelo México que ao lado do brasileiro “Todos os mortos” representa a América Latina na competição principal da Berlinale – tem vários elementos que cativam o espectador, mas no fim fica aquém do que promete.

Dirigido por Natalia Meta (“Morte em Buenos Aires”, 2014), o longa-metragem é uma adaptação do romance de terror “El mal menor” (1996), do escritor argentino Carlos Eduardo Feiling, e mistura comédia, cinema de gênero e thriller psicológico. Infelizmente, em vez de se potencializar, esses caminhos se confundem, gerando uma mistura de tons que, apesar de intencional, deixa muita coisa no ar.

A divertida e consistente Érica Rivas (a inesquecível noiva de “Relatos selvagens”, de 2014) vive Inés, a cativante protagonista oprimida pelos anseios do namorado (Daniel Hendler), da mãe (Cecilia Roth), do paquera (Nahuel Pérez Biscayart) e até mesmo do maestro responsável pelo coral em que ela canta (Guillermo Arengo). O espectador acompanha seu crescente estado de paranoia, às vezes rindo, às vezes temendo certo perigo, mas não chega a compreender bem seus riscos e motivações, e menos ainda as dos demais personagens.

A mistura nonsense que resulta do filme lembra o giallo, gênero literário e cinematográfico italiano, forte nos anos 60, 70 e 80, e que remete a diretores como Mario Bava (“La ragazza”, 1963) e Dario Argento (“Giallo”, 2009), com tramas envolvendo assassinos em série, detetives e mortes chocantes – principalmente de mulheres.

Apesar da referência, muito da história tem de ser construído pelo espectador, como por exemplo o abrupto final, em que as tensões desaguam numa cândida cena musical... A música, ao menos, é muito atraente e resulta difícil de tirar da cabeça. Já o filme, menos.