Rubén Mendoza, o rockstar do cinema colombiano

Rubén Mendoza (à direita), com Luis Ospina

Foto: Rubén Mendoza (à direita), com Luis Ospina.

Conheci Rubén Mendoza quando muito se falava na Colômbia do seu primeiro longa-metragem, La sociedad del semáforo, e eu fazia um mestrado em roteiro de cinema na Universidad Nacional de Bogotá. O filme estava a ponto de sair e muita gente queria saber como seria a estreia desse realizador colombiano, que basicamente tinha editado muitos dos trabalhos do reconhecido documentarista de Cali Luis Ospina, dirigido publicidade em uma produtora grande de Bogotá e feito videoclipes independentes para bandas underground. Também fez em 2004 um curta-metragem que era celebrado nas rodas de curtas e da Universidade Nacional, onde estudou: La cerca, sobre um filho e um pai em conflito desde a morte de sua mãe e esposa e como eles resolvem isso destruindo a cerca que separa suas casas no campo. 

La sociedad del semáforo, que tinha reunido uma série de estímulos para a produção dentro e fora da Colômbia, saiu em 2010 e ganhou reconhecimento rápido, mas nenhum prêmio das principais vitrines de festivais internacionais, ainda que tenha circulado muito. O filme (ficção) é sobre um reciclador de lixo que usa seus poucos conhecimentos para manipular um semáforo de Bogotá, deixando-o mais tempo aberto e dando espaço a outros que vivem na rua como ele e que querem se apresentar aos motoristas: malabaristas, vendedores ambulantes, crianças. Muitos gostaram do resultado, outros nem tanto. O fato é que, como tudo o que faz Rubén Mendoza, é um trabalho de personalidade, onde da escolha dos personagens no roteiro à edição, passando pela trilha, tudo é muito a cara desse cineasta rebelde só pela maneira como se debruça sobre uma Colômbia real que não interessa a quase ninguém mais.

Mendoza é sincero, nos filmes e no trato. Quer dar espaço a figuras da vida colombiana que antes dele não cabiam nos filmes. Assim fez no La sociedad e nos filmes que vieram em seguida, como Memorias del Calavero e Tierra en la lengua, ambos lançados em 2014, e El valle sin sombras, de 2015. Neste 57 Festival Internacional de Cinema de Cartagena, ele está estreando um documentário na competição oficial do gênero: Señorita María, la falda de montaña. É a história de uma mulher transgênero em uma cidadezinha (Boavita) do interior de Boyacá, um estado bastante rural e conservador, e como a coisa mais branda que lhe aconteceu em decorrência disso foi o povo achar que ela era uma criança com chifres e rabos – e, portanto, sua avó que a criou a escondeu (literalmente) em casa por anos. Mas María se libertou, e hoje o cinema de Mendoza contribui para isso.

O filme é sensível, tem além de uma grande personagem e sensibilidade latente uma montagem que o beneficia muito e que permite contar esse conto com o ritmo necessário para criar empatia com o público. A imprensa colombiana anda celebrando este como o provável documentário ganhador do festival este ano, mas o mais bacana do sucesso do Rubén Mendoza é perceber como ele fala o que pensa e por isso tem um público adorador, de jovens em sua maioria. Todas as sessões de Señorita María estavam repletas, e ao final as pessoas ficam para a sessão de perguntas e respostas com o diretor (e, na sessão em que estive, também com a Señorita), elogiando-o e aproveitando sua presença como se estivessem tomando café com uma celebridade, no melhor sentido do termo. O cinema colombiano já tem seu rockstar.