'Santa y Andrés': um filme é para ser visto

Tem um filme cubano que anda circulando muito fora de Cuba, mas não na própria ilha: Santa y Andrés, do realizador de Havana Carlos Lechuga. Carlos, que se formou em roteiro na Escuela de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, dirigiu quatro curtas-metragens e também Melaza, seu primeiro longa-metragem, lançado em 2012 e que circulou bastante por festivais. Da mesma maneira, este seu segundo longa, que recentemente levou três prêmios no Festival Internacional de Cine de Guadalajara (melhor roteiro, melhor filme e melhor atriz), já foi aos festivais de Toronto, San Sebastián, Chicago, Zurique, Genebra, República Dominicana, Cartagena, Los Angeles, Miami, Punta del Este e outros. Mas, segundo Lechuga, está proibido de circular em Cuba.

Santa y Andrés conta a história de uma amizade improvável entre uma camponesa muito fiel aos princípios da Revolução Cubana e um escritor gay perseguido pelo regime por ser “um homossexual com problemas ideológicos”. Transcorrem os anos 90, e ela é designada para vigiá-lo em sua casa por três dias seguidos e evitar que ele saia de casa durante um encontro do partido nessas datas, e, nesse período, ambos se aproximam e superam suas supostas diferenças. Uma premissa simples para um filme tangencialmente político, que fala sobretudo sobre isolamento e o desejo de reconciliação entre os cubanos, conforme pude comprovar quando o assisti em Cartagena. E que faz muito com pouco, ganhando força principalmente graças ao roteiro e à boa atuação dos atores Lola Amores e Eduardo Martínez – um casal na vida real, ambos dedicados ao teatro independente em Havana. 

Depois de apresentar Santa y Andrés em muitas praças, onde chegou a comentar que ele não circulava nas salas cubanas (apesar de ter recebido apoio estatal na fase de desenvolvimento de roteiro), Carlos Lechuga manifestou-sem nas redes sociais sobre a “censura" ao saber que o filme foi retirado da competição do Havana Film Festival de Nueva York graças ao “esforço de autoridades cubanas”. Por conta disso, ele excluiu o filme completamente do evento. “O que é isso? Qual é a mensagem? Não estou em guerra com ninguém. Simplesmente fiz um filme, o que me custou muito trabalho, e agora ninguém vai apagá-lo”, escreveu no Facebook. Aparentemente, não vão mesmo. Santa y Andrés foi exibido nesta semana em Toulouse, na França, em Milão, na Itália, e agora segue para o Panamá e logo para a Espanha. E em Cuba, segundo o diretor, há um burburinho ao redor do veto imposto silenciosamente. Se é que não vai haver pressão para que o filme entre nas salas, quem tiver como já deve ter pirateado. Afinal, um filme existe para ser visto.