'Surire' e a cultura antártica: tesouros de um festival de cinema na Patagônia chilena

O FICAMS – Festival Internacional de Cinema da Antártica sobre Meio-Ambiente e Sustentabilidade – é um festival do sul do Chile que me fez descobrir mais de uma pérola. A primeira, de cara, foi Punta Arenas, a cidade que abriga o evento e que está no coração da Patagônia chilena, de frente para o mítico estreito de Magalhães, que separa o continente americano da Antártica. Quem gostar de viajar sabe do que estou falando: um lugar, quanto mais estranho é ao viajante, mais tem a lhe ensinar. Eu, que ainda não conhecia a região e que nunca havia parado para pensar em “cultura antártica”, descobri em Punta Arenas que tal visão de mundo existe além dos limites antárticos – e que envolve chilenos, argentinos e outros povos ligados ao “fim do mundo” (que bem podem ser também "o começo”), ao frio, aos territórios inóspitos que apagam as ideias de fronteira e à sobrevivência em lugares extremos. Foi uma descoberta e tanto. 

Outra coisa que descobri graças ao FICAMS, claro, foram bons filmes sobre meio-ambiente. Muitos pensamos que filmes sobre natureza tendem a adotar formatos televisivos, convencionais, em prol da necessidade que suas temáticas têm de ser didáticas e chamar a atenção, mas isso não é necessariamente verdade. Um belo exemplo de que é possível fazer cinema falando de meio-ambiente é Surire, documentário chileno dirigido pela dupla de realizadores Bettina Perut e Iván Osnovikoff, para muitos responsáveis por alguns dos documentários mais fascinantes da cinematografia chilena recente. Nesse que é seu sétimo filme, eles se instalaram no Salar de Surire, um deserto de sal localizado no planalto do norte do país, na fronteira com a Bolívia, a 4.300 metros de altitude. Nessa região vivem alguns idosos que são os últimos sobreviventes da cultura aymara na área, cercados de obras de mineração, flamengos, lhamas e, no mais, um grande vazio. São esses o personagem de um longa que cativa com belas paisagens, pouco diálogo e o retrato não só de um espaço, mas especialmente de um tempo e um ritmo de vida. 

Surire ganhou a competição de filmes nacionais do evento, e não foi por menos, depois de uma trajetória de destaque por outros festivais. Sua estreia foi no Festival Internacional de Cinema de Locarno em 2013, dentro da seção “Carte Blance” – que a cada ano escolhe um país fora da Europa para apresentar obras suas em pós-produção. Foi eleito o melhor filme chileno do SANFIC (Santiago Festival Internacional de Cinema) de 2015, recebeu menção especial no Festival Ventana Andina de Jujuy, na Argentina, passou pela Rússia e por outros países. O melhor da produção é, sem dúvida, a proximidade que surpreende o espectador, transportado diretamente para a rotina do salar, junto a seus habitantes, sua beleza natural, o absurdo humano e a decadência cultural. 

Bettina Perut e Iván Osnovikoff, que dirigiram antes La muerte de Pinochet (2011) e Chi-chi-chi Le-le-le Martín Vargas de Chile (2000), entre outros filmes, falaram ao ChileDoc sobre como surgiu a ideia para o doc e sobre seus personagens tão peculiares: “Primeiro conhecemos Dado Aguilar, o vigia do parque CONAF. Ele chegou a Surire para trabalhar na mina quando ela estava sendo instalada e as condições do lugar eram bem difíceis. Agora está casado com uma mulher da região e, além de personagem, foi uma ajuda importante nesse trabalho. Através dele chegamos à Clara, que vive em Paquisa, uma zona úmida ao redor de uma lagoa que sua família ocupou desde inícios do século XX, quando as cabeças de gado na região eram da ordem dos milhares. Quando a conhecemos, sua personalidade imediatamente nos capturou, sua relação com seus cachorros e seus pés. Seus pés são centrais no filme, porque através deles você chega à fortaleza dessa mulher que vive sozinha a 4.300 metros de altitude, em condições climáticas e isolamento extremos. Apesar disso, esse é o lugar em que ela prefere viver e no qual deseja morrer”.