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Terça, 17 de Abril de 2007
Proteção vs. livre comércio, por Lucrecia Martel |
É sobretudo pela distribuição e pelo efetivo acesso do público aos filmes que cinematografias fortes só se constroem com apoios e medidas de proteção por parte do Estado – e não simplesmente a partir de iniciativas individuais de realizadores que desejam (e conseguem) expressar suas visões artísticas.
A Argentina, um dos mercados de cinema mais produtivos da América Latina, ao lado do México e do Brasil, é um dos países que contam com instituições e leis que apóiam a produção nacional. Com suas medidas, o governo muitas vezes enfrenta acusação de atentar às leis de livre comércio.
Lucrecia Martel (O pântano, de 2001, e A menina santa, de 2004), atualmente um dos talentos mais sobressalentes do cinema argentino, publicou sua opinião sobre o tema no principal jornal do país, lançando a provocação: quem acredita que existe liberdade de mercado quando a disponibilidade de capital é tão restringida?
Vale a pena conferir na íntegra o artigo publicado originalmente em 6 de agosto de 2006 na seção "Opinião” do jornal La Nación, de Buenos Aires, e reproduzido por INFOR-MET e Reconquista-popular.
Petróleo
Alguém ainda acredita que venderam o petróleo porque éramos ineficientes?
Por Lucrecia Martel
Se nos esquecemos por um momento de que o cinema é, sobretudo, uma visão do mundo, veremos que, como qualquer indústria, sobrevivem os produtos de empresas com grandes concentração de capital, que dispõem de enormes somas de dinheiro, que são donas dos sistemas de distribuição e exibição – como é o caso das multisalas, que surgiram nos anos 90 e que têm amplo acesso à promoção televisiva.
Isso é para os que, quando se fala sobre cota de tela ou de subsídios para o cinema nacional, saem em defesa da vulnerável liberdade de mercado. Quem, com dois dedos à frente, acredita que existe liberdade de mercado quando a disponibilidade de capital é tão restringida? Ainda existe alguém que acredita que os serviços privatizados são agora melhores e mais baratos? Ou que vendemos nosso petróleo porque éramos ineficientes? Existe alguém que acredite, verdadeiramente, que uma medida de proteção à indústria argentina é um agravante à liberdade de mercado? Este país foi zona livre de comércio durante uma década. O resultado são 21 milhões de pobres.
O cinema argentino está protegido por subsídios e agora também o estará pela cota de tela, que teremos que ir melhorando.
Não está distante à aparição de centenas de técnicos, diretores, produtores, atores e filmes argentinos o diferencial de que em um país exista um Instituto de Cinema e uma Lei de Cinema. Existe vontade por parte do Estado de apoiar essa indústria. O cinema não é somente o resultado do esforço individual de expressão.
Em qualquer encontro internacional de cinema se destaca, sem espanto algum, que a indústria argentina está muito ativa em um país em que muitas indústrias estão em perigo. Não está ativa somente pelos dois ou três filmes argentinos que, felizmente, este ano superaram, ou pouco falta para que o façam, um milhão de espectadores, mas também porque há outros vinte filmes que esperam seu lançamento e outras tantas em produção.
No cinema se reproduz um fenômeno que conhecemos muito bem na Argentina: a contínua ameaça contra as pequenas e médias empresas, assim como contra o trabalho artesanal.
Acredito que os anos 90 tenham sido um grande espetáculo que mostrou como um Estado deixa de planejar o desenvolvimento do país e é arrasado por aqueles que detém o poder econômico. Qual é o benefício para um país com pequenas e médias empresas? Entre outras coisas, é que esse é o setor que mais reinveste, que registra menos evasão impositiva e que, proporcionalmente, mais recolhe impostos, o que está mais próximo aos conflitos da sociedade, o que se instala regionalmente, o que mais necessita de educação terceirizada e universitária para seu desenvolvimento e, por isso mesmo, o que mais tem interesse na educação pública.
O cinema argentino que compete agora internacionalmente é fruto de pequenas e médias empresas argentinas, formadas, em sua maioria, por filhos, netos, sobrinhos, filhos de amigos de muitos que lerão essa nota. Ainda não é um cinema exclusivamente nas mãos de duas ou três empresas vinculadas a grandes poderes financeiros ou com empresas multimídia. Por isso mesmo, é diverso em suas opiniões sobre o mundo e suas propostas estéticas, ainda que lhe falte incorporar mais setores sociais que possam se expresar. Nessa diversidade nem sempre é possível que surjam filmes massivos. O objetivo não é criar um cinema excluente: é próprio do que é diverso os diferentes alcances.
Com a cota de tela, o Estado abriu um terreno para que se desenvolva o cinema argentino. Esperamos que ele não se transforme em um bairro fechado.
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A cota de tela – ou cuota de pantalla– é, por definição, o estabelecimento por parte do Estado argentino de uma quantidade obrigatória de filmes nacionais por sala em um período determinado.
Mais informações sobre as atuais condições em que se desenvolve o cinema argentino podem ser encontradas no site do Istituto Nacional de Cine y Artes Visuales (INCAA): www.incaa.gov.ar. |
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Segunda, 16 de Abril de 2007
Cinusp oferece curso de cinema latino
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Para os interessados, a boa notícia: pouco a pouco surgem novos cursos e iniciativas ligadas ao cinema latino no Brasil, ainda pouco inserido nas trocas culturais dos países latino-americanos de fala espanhola.
Por quatro sábados, de 28.04 a 19.05, o CINUSP, na Universidade de São Paulo, oferece o curso "O Nuevo Cine Latinoamericano: os casos de Argentina e Cuba”, que será ministrado pelos professores Eduardo Morettin, Mônica Lima e Mariana Villaça. Uma oportunidade e tanto para profissionais, estudantes e curiosos.
Mais informações abaixo:
O Nuevo Cine Latinoamericano: os casos de Argentina e Cuba
Ministrado pelos professores Drs. Eduardo Morettin, Mônica Lima e Mariana Villaça, o curso abordará a história dos cinemas argentino e cubano entre as décadas de 50 e 90, analisando as principais transformações de caráter estético e político sofridas por essas cinematografias, com especial enfoque nos anos 60 e 70.
Ao longo do curso será apresentada a produção e a trajetória de cineastas cubanos e argentinos (Santiago Alvarez, Tomás Gutiérrez Alea, Sergio Giral, Sara Gómez, Fernando Birri, Octavio Getino e Fernando Solanas, dentre outros) focando seus projetos estéticos e realizações fílmicas, além dos intercâmbios e debates que marcaram o Nuevo Cine na América Latina.
O curso será realizado na sala de exibição do CINUSP "Paulo Emílio, aos sábados, entre os meses de abril e maio de 2007 nos dias : 28/04, 5/05, 12/05 e 19/05 - no período matutino das 9h às 12h e vespertino das 13h30 às 16h. As inscrições devem ser feitas pessoalmente na administração do CINUSP "Paulo Emílio" das 9h às 17h.
Duração: quatro sábados (abril/maio de 2007): 28/04, 5/05, 12/05, 19/05
Carga horária: 32 horas
Local do curso: Cinusp "Paulo Emílio" Rua do Anfiteatro, 181 Cólmeia - Favo 4 - Cidade Universitária Inscrições: Administração do CINUSP "Paulo Emílio" Rua do Anfiteatro, 181 Cólmeia - Favo 37 - Cidade Universitária tel. 0/xx/11 3091-3540/3152
* Foto: Fresa y Chocolate, de 1994, do diretor cubano Tomás Gutiérrez Alea. |
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Segunda, 09 de Abril de 2007
Cinema equatoriano, por Rafael Barriga
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Os países latino-americanos podem carecer ainda de cinematografias expressivas e, sobretudo, de políticas de apoio ao desenvolvimento de produções nacionais, mas, cada vez mais e para sua sorte, contam com seus próprios pensadores e profissionais especializados.
Com apenas 35 anos, o equatoriano Rafael Barriga já reúne um extenso currículo como crítico de cinema, realizador e diretor de programação de um dos principais cinemas independentes de seu país, o Ocho y Medio (www.ochoymedio.net). Na Escócia, no Queen Margaret College, de Edimburgo, concluiu a carreira de Estudos Cinematográficos; na Dinamarca, na Universidade de Copenhaguem, fez pós-graduação em crítica de cinema e de arte; e, finalmente, na Pensilvânia, nos Estados Unidos, especializou-se em Negócios Cinematográficos. É também o dono de uma pequena produtora, responsável pela criação de três documentários );ligados a temas históricos e políticos.
Toda essa experiência – apesar de não lhe dar mais orgulho do que estar com seu filho de três anos, Emilio, frequentemente citado em suas conversas – é o que dá a Rafael a autoridade para falar sobre cinema equatoriano, sua atual situação e sua recente trajetória.
Confira a entrevista cedida com exclusividade à La Latina:
Que caminho segue atualmente o cinema do Equador e que trajetória viveu até hoje?
O cinema equatoriano está dando seus primeiros passos como potencial indústria. Até pouco tempo, todos os esforços por fazer cinema vieram das possibilidades individuais de cada realizador. O primeiro longa nacional foi realizado somente no final da década de 70. Antes, foram produzidos documentários de média duração, além de curtas de todos os tipos. Desde 1980 até 2005, foram feitos apenas 12 longas finalizados em 35 mm.
Entretanto, é notável que nos últimos anos a produção equatoriana despontou: vários filmes de ficção chegaram ao grande público. La Tigra, de 1990, por Camilo Luzuriaga; Ratas, ratones, rateros, de 2001, por Sebastián Cordero; e Qué tan lejos, de 2006, por Tania Hermida são todos exemplos que não só foram grandes êxitos entre o público local, como também ganharam festivais de importância ao nível mundial. Foram produzidos também uma dúzia de documentários em longa metragem de alguma importância.
Atualmente, há muito otimismo, graças à criação do Conselho Nacional de Cinematografia, que financiará e coordenará a ação local. Além disso, há dois longas de ficção finalizados em 35 mm prontos para entrar em cartaz.
O Conselho Nacional de Cinematografia, que você acaba de mencionar, e a Lei Nacional de Cinema somente foram criadas em 2006, certo? Como se desenvolveu até então a produção nacional?
A produção foi, até hoje, assunto particular dos realizadores. Em alguns poucos casos, os filmes foram patrocinados por entidades estatais, como, por exemplo, Entre Marx y una mujer desnuda, de 1996, por Camilo Luzuriaga e 1809-1810, de 2004, pelo mesmo diretor. Mas esses aportes aconteceram graças ao poder de convencimento do realizador ou do produtor e também, claro, pela benevolência do patrocinador. A maioria dos outros filmes foram financiadas graças a aportes privados e, no caso de Crónicas, de 2004, por Sebastián Cordero, graças a uma co-produção com o México.
Como é a distribuição de filmes no país em salas de cinema e também em DVD?
No Equador, os produtores são também distribuidores de seus próprios filmes. Eles fazem os contatos com as salas y, uma vez que o mundo cinematográfico equatoriano é bastante pequeno, a gestão acaba nao sendo difícil. O problema é que as grandes cadeias de cinema não confiam muito na produção equatoriana. Agora, no entanto, e graças ao sucesso das atuais produções nacionais em cartaz, há mais abertura.
Já o mercado formal de vídeo não existe no Equador. A pirataria é o único modo de distribuição de qualquer filme em vídeo. Distribuição ilegal, sem dúvida.
Por Camila Moraes |
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